Giulliano Gardenghi – Coordenador científico da Faculdade CEAFI
Muitos de nós não começamos o dia sem uma boa xícara de café, mas o que a ciência vem confirmando é que esse hábito vai muito além de um simples “despertador” matinal. Um estudo recente de peso, acompanhando mais de 131 mil profissionais de saúde por quase 40 anos, trouxe dados sobre como a cafeína pode ser uma aliada poderosa da nossa longevidade cognitiva. A pesquisa, liderada pelo Dr. Dong Wang e publicada no prestigiado jornal JAMA, revelou que quem consome café ou chá regularmente tem um risco significativamente menor de desenvolver demência ao longo da vida.
Os maiores consumidores de café tiveram uma redução de 18% no risco de demência em comparação com aqueles que quase não bebiam. Mas o segredo parece estar no equilíbrio. O ponto da proteção cerebral ficou entre duas a três xícaras de café cafeinado por dia, ou uma a duas xícaras de chá. Curiosamente, o café descafeinado não mostrou o mesmo efeito protetor, o que aponta para a cafeína como a grande protagonista dessa história. Ela não atua apenas nos deixando alertas, ela bloqueia receptores de adenosina no cérebro que estão ligados à inflamação e ao desgaste neuronal, funcionando como um suporte extra para a nossa reserva cognitiva.
Um ponto fascinante que merece destaque é a complexidade bioquímica envolvida em cada gole. Embora a cafeína receba a maior parte dos holofotes devido à sua ação direta nos receptores de adenosina, o café e o chá são verdadeiros compostos bioativos. Ácidos clorogênicos e polifenóis, presentes em abundância nessas bebidas, possuem propriedades antioxidantes que combatem o estresse oxidativo nas células cerebrais. Essa sinergia ajuda a proteger a barreira hematoencefálica, uma espécie de filtro natural do nosso cérebro, impedindo que toxinas e agentes inflamatórios circulantes causem danos aos neurônios ao longo das décadas.
Além disso, a robustez deste estudo reside no tempo de observação. Foram quase 43 anos acompanhando a rotina de milhares de pessoas. Isso é crucial porque a demência não acontece da noite para o dia. As alterações no cérebro começam a surgir 20 ou até 30 anos antes dos primeiros lapsos de memória ficarem evidentes. Ao observar que o benefício do café se manteve consistente mesmo após décadas, os pesquisadores reforçam a ideia de que a nutrição funcional atua na prevenção primária. Ou seja, beber café de forma moderada na meia-idade pode estar pavimentando um caminho muito mais seguro para a saúde cognitiva na velhice.
Por fim, é interessante observar que os benefícios não foram alterados pelo perfil genético dos participantes, incluindo aqueles que possuem o gene APOE4, conhecido por aumentar o risco de Alzheimer. Isso sugere que a cafeína pode oferecer um nível de proteção que transcende a hereditariedade. Cabe ressaltar que cada organismo processa a cafeína em uma velocidade diferente, e o excesso pode causar ansiedade ou interferir no sono, o que anularia os ganhos cerebrais. O segredo, portanto, parece ser a consistência e a moderação, transformando um hábito cultural simples em uma ferramenta estratégica de saúde pública e bem-estar individual.
Dessa forma, a ciência nos dá mais um motivo para apreciar nossa próxima xícara com a consciência tranquila. Embora não seja uma solução mágica, o hábito de consumir café ou chá cafeinado se consolida como uma peça acessível e prazerosa no grande quebra-cabeça da preservação da nossa memória e identidade.
Referências
- Wang D, Hu Y, Tabung FK, Manson JE, Willett WC, Grodstein F, et al. Coffee and tea intake and risk of dementia: a 43-year prospective study of US health professionals. JAMA. 2026 Feb 9;335(6):512-22.
- George J. Daily coffee tied to brain benefits: two to three cups a day linked with less dementia risk — but not if it’s decaf. MedPage Today [Internet]. 2026 Feb 9 [citado 2026 Feb 18]; Neurology. Disponível em: https://www.medpagetoday.com/neurology/dementia/119811

